MAPA ASTRAL

quinta-feira, 3 de junho de 2010

1439 O FUTURO DE UMA ILUSÃO


III
Em que reside o valor peculiar das idéias religiosas?
Já falamos da hostilidade para com a civilização, produzida pela pressão que esta
exerce, pelas renúncias do instinto que exige. Se imaginarem suspensas as suas
proibições – se, então, se pudesse tomar a mulher que se quisesse como objeto sexual;
se fosse possível matar sem hesitação o rival ao amor dela ou qualquer pessoa que se
colocasse no caminho, e se, também, se pudesse levar consigo qualquer dos pertences
de outro homem sem pedir licença –, quão esplêndida, que sucessão de satisfações
seria a vida! É verdade que logo nos deparamos com a primeira dificuldade: todos os
outros têm exatamente os mesmos desejos que eu, e não me tratarão com mais
consideração do que eu os trato. Assim, na realidade, só uma única pessoa se poderia
tornar irrestritamente feliz através de uma tal remoção das restrições da civilização, e
essa pessoa seria um tirano, um ditador, que se tivesse apoderado de todos os meios de
poder. E mesmo ele teria todos os motivos para desejar que os outros observassem
pelo menos um mandamento cultural: “não matarás”.
Mas quão ingrato, quão insensato, no fim das contas, é esforçar-se pela abolição da
civilização! O que então restaria seria um estado de natureza, muito mais difícil de
suportar. É verdade que a natureza não exigiria de nós quaisquer restrições dos
instintos, deixar-nos-ia proceder como bem quiséssemos; contudo, ela possui seu
próprio método, particularmente eficiente, de nos coibir. Ela nos destrói, fria, cruel e
incansavelmente, segundo nos parece, e, possivelmente, através das próprias coisas
que ocasionaram nossa satisfação. Foi precisamente por causa dos perigos com que a
natureza nos ameaça que nos reunimos e criamos a civilização, a qual também, entre
outras coisas, se destina a tornar possível nossa vida comunal, pois a principal missão
da civilização, sua raison d’être real, é nos defender contra a natureza.
Todos sabemos que, de diversas maneiras, a civilização já faz isso bastante bem, e é
claro que, na medida em que o tempo passa, o fará muito melhor. Ninguém, no
entanto, alimenta a ilusão de que a natureza já foi vencida, e poucos se atrevem a ter
esperanças de que um dia ela se submeta inteiramente ao homem. Há os elementos,
que parecem escarnecer de qualquer controle humano; a terra, que treme, se
escancara e sepulta toda a vida humana e suas obras; a água, que inunda e afoga tudo
num torvelinho; as tempestades, que arrastam tudo o que se lhes antepõe; as doenças,
que só recentemente identificamos como sendo ataques oriundos de outros
organismos, e, finalmente, o penoso enigma da morte, contra o qual remédio algum foi
encontrado e provavelmente nunca será. É com essas forças que a natureza se ergue
contra nós, majestosa, cruel e inexorável; uma vez mais nos traz à mente nossa
fraqueza e desamparo, de que pensávamos ter fugido através do trabalho de
civilização. Uma das poucas impressões gratificantes e exaltantes que a humanidade
pode oferecer, ocorre quando, em face de uma catástrofe elementar, esquece as
discordâncias de sua civilização, todas as suas dificuldades e animosidades internas, e
se lembra da grande tarefa comum de se preservar contra o poder superior da
natureza.
Tal como para a humanidade em geral, também para o indivíduo a vida é difícil de
suportar. A civilização de que participa impõe-lhe uma certa quantidade de privação,
e outros homens lhe trazem outro tanto de sofrimento, seja apesar dos preceitos de
sua civilização, seja por causa das imperfeições dela. A isso se acrescentam os danos
que a natureza indomada – o que ele chama de Destino – lhe inflige. Poder-se-ia supor
que essa condição das coisas resultaria num permanente estado de ansiosa expectativa
presente nele e em grave prejuízo a seu narcisismo natural. Já sabemos como o
indivíduo reage aos danos que a civilização e os outros homens lhe infligem:
desenvolve um grau correspondente de resistência aos regulamentos da civilização e
de hostilidade para com ela. Mas, como se defende ele contra os poderes superiores da
natureza, do Destino, que o ameaçam da mesma forma que a tudo mais?
A civilização o poupa dessa tarefa; ela a desempenha da mesma maneira para todos,
igualmente, e é digno de nota que, nisso, quase todas as civilizações agem de modo
semelhante. A civilização não se detém na tarefa de defender o homem contra a
natureza, mas simplesmente a prossegue por outros meios. Trata-se de uma tarefa
múltipla. A auto-estima do homem, seriamente ameaçada, exige consolação; a vida e o
universo devem ser despidos de seus terrores; ademais, sua curiosidade, movida, é
verdade, pelo mais forte interesse prático, pede uma resposta.

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