MAPA ASTRAL

quinta-feira, 3 de junho de 2010

1436 O FUTURO DE UMA ILUSÃO


IV
Uma investigação que progride como um monólogo, sem interrupção, não está
inteiramente livre de perigos. Facilmente, fica-se tentado a pôr de lado pensamentos
que nela ameaçam irromper, e, em troca, fica-se com uma sensação de incerteza que,
no final, se tenta manter submissa por uma decisão radical. Imaginarei, portanto, que
tenho um opositor que acompanha meus argumentos com desconfiança e, aqui e ali,
permitirei que interponha algumas observações.
Escuto-o dizer: “Você empregou repetidamente as expressões ‘a civilização cria essas
idéias religiosas’, ‘a civilização as coloca à disposição de seus participantes’. Há nisso
algo que me soa estranho. Não posso dizer por que razão, mas não soa tão natural
quanto dizer que a civilização dos produtos do trabalho, ou sobre os direitos
referentes às mulheres e crianças”.
Ainda assim, penso que se justifica expressar-me dessa maneira. Tentei demonstrar
que as idéias religiosas surgiram da mesma necessidade de que se originaram todas as
outras realizações da civilização, ou seja, da necessidade de defesa contra a força
esmagadoramente superior da natureza. A isso acrescentou-se um segundo motivo: o
impulso a retificar as deficiências da civilização, que se faziam sentir penosamente.
Ademais, é especialmente apropriado dizer que a civilização fornece ao indivíduo
essas idéias, porque ele já as encontra lá; são-lhe presenteadas já prontas, e ele não
seria capaz de descobri-las por si mesmo. Aquilo em que ele está ingressando constitui
a herança de muitas gerações, e ele a assume tal como faz com a tabuada de
multiplicar, a geometria, e outras coisas semelhantes. Há, na realidade, uma diferença
nisso, mas ela reside em outro lugar e ainda não posso examiná-la. A sensação de
estranheza que você menciona, talvez se deva em parte ao fato de esse corpo de idéias
religiosas ser geralmente apresentado como revelação divina. Contudo, essa própria
apresentação faz parte do sistema religioso e ignora inteiramente o desenvolvimento
histórico conhecido dessas idéias e suas diferenças em épocas e civilizações diferentes.
“Temos aqui outro ponto, que me parece ser mais importante. Você argumenta que a
humanização da natureza deriva da necessidade de pôr fim à perplexidade e ao
desamparo do homem frente a suas forças temíveis, de entrar em relação com elas e,
finalmente, de influenciá-las. Mas uma motivação desse tipo parece supérflua. O
homem primitivo não tem escolha, não dispõe de outra maneira de pensar. É-lhe
natural, algo inato, por assim dizer, projetar exteriormente sua existência para o
mundo e encarar todo acontecimento que observa como manifestação de seres que, no
fundo, são semelhantes a ele próprio. É seu único método de compreensão. E de modo
algum trata-se de algo auto-evidente, mas, pelo contrário, de uma coincidência
notável, que, cedendo assim à sua disposição natural, consegue satisfazer uma de suas
maiores necessidades”.

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