MAPA ASTRAL

domingo, 13 de abril de 2008

534 HOWARD BECKER E GILBERTO VELHO

G.V. - Como se deu essa associação entre Merton e Lazarsfeld? - Eles foram para Columbia nos anos 30 e começaram a se envolver um com o outro. E houve uma conexão interessante com a pesquisa metodológica. Naquela época um homem chamado Frank Stanton, que tinha formação em ciências sociais, tomou-se o chefe do serviço de rádio de Columbia e contratou Lazarsfeld para fazer toda sorte de pesquisas com os ouvintes. Foi assim que começou. Eles desenvolveram métodos do tipo survey num contexto de pesquisa comercial. E o papel de Merton foi descobrir a importância teórica desse trabalho e torná-lo academicamente respeitável, o que ele de fato conseguiu fazer. Começaram a publicar trabalhos, a estudar votos em eleições. Quando veio a guerra, ocorreu uma enorme inovação. O governo contratou Samuel Stowford, que por sua vez contratou um grande número de pessoas para trabalhar com Lazarsfeld e desenvolveu uma pesquisa de tipo survey no Exército americano. Eles fizeram várias pesquisas sobre o moral dos soldados, sobre planos para a desmobilização do Exército, produziram um grande número de surveys. Terminada a guerra, obtiveram permissão para dispor dessas pesquisas e produziram uma obra em vários volumes chamada The American Soldier, um monumento da pesquisa survey. Esse trabalho foi feito para ter uma função política no campo da sociologia. Era como se dissessem: "Vejam, nós também temos métodos científicos."

G.V. – Qual foi o papel de Lazarsfeld nessa pesquisa? - Acho que ele trabalhava como uma espécie de consultor. Depois da guerra, Merton foi o principal intérprete desse material. Por exemplo, o conceito de Merton de relative deprivation foi elaborado para explicar os dados desse trabalho: por que certos soldados se consideravam mais infelizes do que outros, embora na realidade estivessem em situação melhor?

G.V. - Quem mais você mencionaria em Columbia? - Columbia teve um grande número de estudantes que se tornaram pessoas importantes: Peter Blau, James Coleman, Peter Ross, Alvin Gouldner, Seymour Martin Lipset e outros. Esta foi uma geração muito importante.

G.V. - É interessante destacar que depois da guerra a antropologia se tornou muito importante em Columbia. Aliás, desde o começo a antropologia foi importante em Columbia, devido à presença de Franz Boas. Eles podiam não ter um departamento de sociologia tão bom quanto Chicago, mas desde cedo se destacaram na antropologia. - É verdade. Mas o fato é que depois da guerra apareceram cinco ou seis bons departamentos de sociologia nos Estados Unidos. Harvard, com Parsons, tomou-se importante. Stouffer também estava lá, era o pesquisador. Parsons e Stouffer nunca tiveram uma colaboraçãoestreita como Lazarsfeld e Merton. Até que tentaram, mas as idéias de Parsons eram tão abstratas que não foi possível. Michigan e Winsconsin tornaram-se importantes. Mais ou menos em 1950 Herbert Blumer foi para a Universidade da California, em Berkeley, e formou um bom,departamento. E assim por diante.

G.V. - Na época da sua formação e no período subseqüente Marx tinha alguma importância nesses centros de sociologia? - Isso é muito interessante. Antes da minha época, nos anos 20 e 30, o marxismo, na forma do comunismo americano e dos grupos anti-stalinistas, era muito importante intelectualmente para muita gente. Havia muita gente falando sobre Marx. Mas isso ocorreu no contexto da depressão americana. Os sentimentos da nação estavam confusos, e achava-se que talvez uma revolução estivesse por acontecer, a exemplo da Rússia. Naturalmente – vocês conhecem essa história -, todas as facções tradicionais do comunismo europeu foram importadas para os Estados Unidos. A maioria delas era muito restrita e foi desproporcionalmente influente nos grupos intelectuais. Estou falando do trotskismo e de tantas outras correntes de esquerda.

G.V. - A influência dessas correntes nas artes foi grande. Mas também foi forte nas instituições acadêmicas? - Não sei. Everett Hughes me disse uma vez que antes da Segunda Guerra todos os estudantes de sociologia eram marxistas e provavelmente comunistas, mas não se revelavam. Porque a tradição anticomunista nos Estados Unidos, que culminou no macarthismo, era muito forte desde o fim da Primeira Guerra, quando houve uma repressão terrível contra os grupos radicais, quando surgiu a famosa campanha de Palmer, o procurador-geral dos Estados Unidos, que resultou na prisão de centenas de pessoas acusadas de subversão. Logo, ninguém dizia publicamente que era comunista.

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