MAPA ASTRAL

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

179 O PRESENTE DA ÁGUIA

(Prólogo) "Embora eu seja antropólogo, este não é um trabalho de mera antropologia; ainda assim baseia-se nela, pois foi iniciado há anos atrás como uma pesquisa de campo antropológica. Eu estava interessado na época, em estudar os usos das plantas medicinais entre os indígenas do sudoeste e do norte do México.Minha pesquisa evoluiu para outra área com o passar dos anos, como conseqüência de seu próprio momento e do meu próprio desenvolvimento. O estudo das plantas medicinais deu lugar ao estudo de um sistema de crenças que parecia atravessar as fronteiras de, pelo menos, duas culturas diferentes. A pessoa responsável por essa mudança de enfoque do meu trabalho foi um índio Yaqui do norte do México, Dom Juan Matus, que mais tarde me apresentou a Dom Genaro Flores, um índio Mazatec do México central. Ambos eram praticantes de uma ciência antiga, que em nossa época é comumente denominada feitiçaria, sendo considerada uma forma primitiva de ciência médica ou psicológica, mas que na verdade é uma tradição de praticantes extremamente auto-disciplinares e de uma práxis extremamente sofisticada.Os dois homens passaram a ser mais meus mestres que informantes, mas continuei a ver minha tarefa como trabalho de antropologia. Passei anos tentando descobrir a matriz cultural daquele sistema, a aperfeiçoar uma taxinomia, um esquema classificatório, uma hipótese de sua origem e disseminação. Todos os esforços foram vãos, pois, no final, as forças compulsórias inerentes àquele sistema desviaram minha busca intelectual e me levaram a ser um participante.Sob a influência daqueles dois homens poderosos meu trabalho transformou-se numa autobiografia, no sentido de que fui forçado, do momento em que me tornei participante, a registrar o que me acontecia. É uma biografia peculiar porque não registro o que aconteceu comigo na minha vida diária como um homem padrão, nem registro meu estado subjetivo proveniente do todo o dia. Registro os acontecimentos que se dão não minha vida como um resultado direto de ter adotado um conjunto estranho de idéias e procedimentos interligados. Em outras palavras, o sistema de crenças que eu queria estudar apoderou-se de mim, e a fim de que eu prossiga em minhas observações devo uma extraordinária paga diária, minha vida como um homem pertencente a este mundo.Devido a essas circunstância vejo-me agora com o problema especial de ter de explicar o que estou fazendo. Estou muito longe do meu ponto de origem como homem padrão ocidental ou como antropólogo, e devo em primeiro lugar reiterar que este trabalho não é uma ficção. O que vou descrever é estranho para nós, portanto parece irreal.A medida que me aprofundo nos detalhes da feitiçaria, o que a princípio parecia ser um sistema de crenças e práticas primitivas torna-se então um mundo enorme e complexo. A fim de me tornar familiarizado com esse mundo, e registra-lo, tenho de me usar de maneiras cada vez mais complexas e mais refinadas. O que quer que me venha acontecer não pode ser previsto por mim, ou ser congruente com o que os outros antropólogos conhecem sobre os sistemas de crenças dos índios mexicanos. Conseqüentemente estou numa posição difícil; tudo o que posso fazer nessas circunstâncias é registrar o que aconteceu comigo à medida que vai acontecendo. Não posso dar nenhuma outra asseveração da minha boa fé, a não ser reassegurar que não vivo uma vida dupla e que me comprometi a seguir os princípios de Dom Juan na minha existência diária.

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